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Estará a indústria da música europeia em boa forma?

Junho 26, 2020 MIL URL talks

 

Uma conversa moderada e com a curadoria do CURA Collectif

Trabalhar na música hoje em dia pode levar, na minha visão, a duas questões fundamentais: como é que te tornas no próximo Avicii e como é que evitas tornar-te no próximo Avicii. Claro, podes desejar ter tanto sucesso quanto o Avicii, mas não queres ir tão longe como ele foi nas situações muito dramáticas pelas quais todos sabemos que ele passou. Assim, no sucesso, como na indiferença ou no fracasso, seguir uma carreira no campo artístico pode levar a uma imensa satisfação mas também a uma profunda decepção.

MIL URL talk Estará a indústria da música europeia em boa forma? foi apresentada pelo Shkyd, produtor musical, DJ, escritor francês e co-fundador do CURA Collectif, com a declaração acima. A conversa que deveria ter acontecido no MIL reuniu diferentes perspectivas do sector da saúde na indústria da música para entender as dificuldades desta indústria e o que pode ser feito. O painel foi composto por Coralie Cousin, fisioterapeuta de músicos, Esther Van Der Poel, personal coach do PACCT Amsterdam, Pierluxx, manager, Sally-Anne Gross, directora do programa de mestrado Music Business Management e Sandrine Bileci, naturopata/health coach e membro do CURA Collectif.

A INDÚSTRIA DA MÚSICA E A SAÚDE

Sally-Anne explica que a saúde sempre foi algo que flutuou na atmosfera da indústria da música, pois, ao trabalhar com artistas, aprende-se que expressar emoções faz parte do seu ser. Quando Esther começou a trabalhar na indústria da música, percebeu que os artistas estavam a lidar com muita pressão (especialmente agora com as redes sociais) e a não aproveitar o momento – dado que iniciam as suas carreiras com paixão e amor, mas depois simplesmente não conseguem estar satisfeitos e nunca param.

Quando Esther fundou o PACCT Amsterdam, um projeto de coaching e aconselhamento para artistas,  muitos profissionais de música a congratularam, mas a maioria deles não reconheceu que isto podia ser direcionado aos seus próprios artistas . Inicialmente, principalmente os managers, pensavam que poderiam fazer o trabalho: conversar com os artistas para garantir que estavam se estão a sentir bem. No entanto, explica Esther, os managers (e outros profissionais) têm interesses adicionais que, mesmo inconscientemente, não colocam a saúde mental dos artistas como prioridade.

Como jovem profissional da música na Bélgica, Pierre descreve por que é difícil considerar a indústria da música belga como uma indústria: Todos os artistas são obrigados a assinar um contracto em França ou a exportar, e isso deve-se ao tamanho do país e à sua infraestrutura, que ainda não está muito desenvolvida. Por isso, podem imaginar que a saúde mental dos artistas é completamente negligenciada. (…) nem é questionada. Nesse sentido, Pierre defende que é fundamental interessar-se por este tópico, especialmente na sua relação enquanto manager com os seus artistas nas fases iniciais das suas carreiras..

E A SAÚDE FÍSICA??

Ao longo da sua carreira, Coralie conheceu cerca de 6000 instrumentistas de todos os estilos musicais e chegou à conclusão de que a sua principal lesão é o stress. Os principais motivos são a falta de prevenção em conservatórios e escolas de música e de fisioterapeutas especializados. Aprender um instrumento requer praticar por longas horas com uma repetição intensa de movimentos que, quando realizados de maneira incorreta, podem levar ao desgaste físico. E os artistas estão acostumados a trabalhar e a conviver com a sua dor – já que reconhecê-la significa interromper as suas actividades como músicos por um período indeterminado de tempo. O que é realmente importante é fazer prevenção, criar estratégias, colocar fisioterapeutas na escola e que os músicos saibam que podem contactar um fisioterapeuta que sabe do que fala e que dá conselhos simples, conclui Coralie.

O QUE PODEMOS FAZER SOBRE ISSO?

De acordo com Sally-Anne, o seu estudo Can music make you sick? revelou quão sistémicas são as práticas de trabalho da indústria da música. Obviamente, a melhoria da saúde de todos exige trabalho individual, mas Sally-Anne destaca que é muito importante, para os próprios músicos nem sempre pensar que eles são responsáveis. Não precisam de ser o super-homem. (…) Ninguém deve trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana e não desligar o telefone, responder a todos os emails e fazer uma nova música a cada cinco minutos.

Sandrine concorda, afirmando que os músicos e profissionais da música estão a enfrentar um “desequilíbrio entre a sua vida pessoal e a vida profissional”. Sandrine faz parte do CURA Collectif, que realizou o primeiro estudo francês sobre saúde mental para artistas e profissionais da música e foi publicado em outubro de 2019. Num painel de 500 pessoas (metade do sexo masculino e metade do sexo feminino), 4 em cada 5 pessoas declararam que têm ansiedade e 25% foram diagnosticados com depressão pelo menos uma vez na vida. Analisando esses números em França, este estudo concluiu que músicos ou profissionais da música em França têm duas vezes mais hipóteses de serem diagnosticados com depressão. Isso de facto mostra a sensibilidade deles. Portanto, explica Sandrine, o maior desafio é mesmo fazer com que as pessoas entendam que essas pessoas estão mais susceptíveis para ter depressões, mas é o nosso dever, enquanto indústria, de cuidar dessas pessoas duas vezes mais.

Os obstáculos para uma boa saúde mental são estruturais, como dissemos, mas também são baseados em género: Sandrine revela que uma em três mulheres declarou sofrer ou já ter sofrido de assédio sexual e uma em cada duas pessoas (especialmente mulheres) sofreram assédio moral.

Todos concordam que a saúde mental – e a saúde em geral – precisa de deixar de ser um tabu. A principal questão é, definitivamente, que as pessoas não sabem que precisam de ajuda ou onde encontrá-la. Portanto, é fundamental juntarmo-nos e conversar sobre isso. Para além disso, é importante abordar a condição financeira do trabalho na indústria da música, que se tornou tão evidente durante a crise pandémica em que vivemos. Sally-Anne afirma que em termos do apoio individual do governo europeu aos músicos, neste momento, devia haver algum tipo de renda básica universal em toda a Europa para tirar todos os músicos da situação de viver sempre à beira do precipício.

Julien conclui que quanto mais nos reunimos e mais conversamos sobre essas questões, mais perfis são conhecidos, mais artistas terão uma compreensão e vínculos mais fortes para poder contactar as pessoas de quem eles realmente precisam.

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